terça-feira, 1 de março de 2016

A história já tem 17 anos...

Há 17 anos tornei-me uma mulher!
Recordo o dia 1 de março de 1999 como se tivesse acontecido há instantes, recordo que nesse dia tive poucas aulas e que tive uma hora de almoço enorme... Recordo-me perfeitamente de ter vindo a casa almoçar "uma sopa", de te dar uma sopa e ajudar-te a respirar... Recordo-me de te ter visto assim pela última vez: deitado na cama e com muita dificuldade para respirar. Numa tentativa de te ajudar, esfreguei-te vicks no peito e saí do quarto...
Depois, tudo o que recordo desse dia é estranho e de sabores disformes. Recordo que foram muitos e diferentes os sentimentos: a pena no olhar das pessoas, a raiva por me estarem a olhar "com pena", a coragem que quis ter, a forca que fui buscar não sei bem onde, as dúvidas e as incertezas, a protecção de um ou dois "adultos", os abraços das pessoas que de facto gostavam de mim, o conforto de algumas presenças e o medo... Na altura sabia tão pouco sobre a vida! Mas, sabia que naquele dia "algo" mudaria o rumo das coisas. Soube-o Logo!
Lembro-me que voltei para a escola, após o "nosso" último almoço, para ter mais uma ou duas aulas. Já ia preocupada e quando regressei - recordo-o nitidamente - tudo já estava diferente! Ninguém me disse por palavras o que te tinha acontecido, mas eu soube-o muito rapidamente... Soube-o assim que cheguei ao inicio da rua, soube-o quando vi a ambulância, soube-o porque as pessoas mo disseram pelos olhares de pena "pela coitadinha...", soube-o quando ao subir as nossas escadas os bombeiros me abalroaram, soube-o quando o R. saiu rua fora a chorar, revoltado e completamente perdido, soube-o na frustração do Dr.º R., soube-o quando cheguei junto da mãe... Tu, já não estavas connosco, já não voltei a ver os teus olhos azuis, a ouvir a tua voz, a ver-te andar rabugento pela casa... Naquela tarde, tudo tinha mudado! Há 17 anos atrás, tu morrias. E, numa muito estranha 2.ª feira, o primeiro dia do mês de março, um dia que não consegui nunca mais esquecer, tu simplesmente partias. Partias e ficava a certeza de que tudo mudara...

Naquele dia, tornei-me mulher! Deixei de ser menina, a tua menina, "a loirinha"...
Naquele dia e, também nos dias antes eu tinha enfrentado tanta coisa: o acidente da mãe, a sua ausência em casa, o modo como não conseguias lidar com isso, a tua desistência pela vida, os comprimidos que não tomavas, as inúmeras coisas que havia para fazer numa casa cheia, com o seu pilar doente... Tinha na altura 14 anos e uma força monstruosa! Fiz tudo o que era suposto uma menina daquela idade fazer, ajudei no pude e, sobretudo, não atrapalhei... Recordo-me do cansaço e de ter sono!
Depois... Depois, veio - aos poucos... - a parte mais difícil: fazer o luto, suportar as ausências, ver o vazio, a falta do teu lugar na mesa, o lidar com as saudades, o sobreviver às primeiras datas importantes sem ti... Confesso que chorei muito às escondidas! Mas, porque estava a crescer e a tornar-me numa mulher forte e corajosa, superei com tempo (e algumas amizades!) a tua partida e por isso hoje falo abertamente deste dia, deste assunto, da tua partida... Já não doí, já não custa, já arrumei e aceitei as coisas....

Mas, a história já tem 17 anos... E hoje, ao passar mais um ano, e já não havendo os habituais fantasmas "dos porquês?", existem muitos "será?"...
Será, que a mulher que hoje sou, é a que tu imaginaste um dia? Será que tens orgulho em mim? Será que me vês, onde estás? Será que estás diferente? Será que nos vamos reencontrar? Será que nesse dia, vais mostrar-me o carinho que faltou?
Naquele dia, tornei-me mulher! Aos catorze anos foi necessário crescer, ganhar asas, concretizar sonhos, subir montanhas, ir para além do que até então era permitido... E, em 17 anos, fiz tantas coisas que sei que gostarias de ter visto! Das maiores alegrias que sei que gostarias de ter partihado comigo era a minha carta e o carro... Mas também fiz outras que, se não tivesses partido, eu não o faria. Por exemplo, no verão desse ano comecei a trabalhar e tu nunca permitirias que "a tua menina" o fizesse enquanto ainda estudava... E depois, há ainda tantas outras coisas, que sei que reprovas, que nunca serias capaz de autorizar...
Em 17 anos eu crescí muito, tomei desições, assumi riscos, conheci tantas e tantas pessoas, viagei tanto, vivi amores e desamores, mudei formas de estar, de ser e pensar...
Mas, será? Será que aprovas cada passo meu? Será que interferes de algum modo na minha vida? Será que me proteges quando preciso? Será que te surpreendo? Ou será que te desiludo?

Há 17 anos tornei-me mulher e hoje queria tanto puder voltar a ser criança, a ter 14 anos...
A história já tem 17 anos... o meu pai partiu faz hoje 17 anos!

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